terça-feira, 17 de março de 2020

Por que a melhor atitude para o controle do COVID-19 é ficar em casa?

Atualmente me encontro fazendo um estágio na Dinamarca, esse estágio tem duração de 6 meses. Obviamente ninguém espera que aconteça uma contaminação global por um vírus. Parece coisa de filme, mas como todos em Copenhague eu atualmente me encontro fechado em casa, uma vez que estou com uma gripe, como não tenho sintomas pesados, como febre alta e falta de ar, estou em uma quarentena pessoal, sei que se precisar de algo eu posso pedir ajuda para alguém no alojamento.

Nessa postagem quero mostrar como funciona o quadro de disseminação e controle de uma doença virótica e altamente transmissível como são as gripes.

O Gráfico 1 abaixo podemos ver o processo de disseminação do COVID-19 na Dinamarca (a linha preta é a linha de tendência). Observem como é interessante o processo. No dia 12 de Março foi tomado a ordem de contenção, ou seja, as pessoas não deveriam ir trabalhar ou ir até as faculdades e escolas. No dia 13 ocorre um ligeiro aumento dos casos de COVID-19, mas em seguida ocorre uma queda bastante brusca (abaixo da linha azul de divisória).

Gráfico 1: Crescimento da contaminação diária por COVID-19 na Dinamarca.
Fonte: Autoridade Dinamarquesa de Saúde.

Tomando por base nisso tracei umas linhas no gráfico. Podemos tomar por base as linhas verdes como o zero de angulação e as linhas pontilhadas as tendências de crescimento. Observem que antes da contenção (pontilhado vermelho) o ângulo de abertura é bastante aberto, indicando um rápido contágio. Entretanto quando vemos após a contenção (pontilhado azul) o ângulo do gráfico é bem mais fechado, indicando um crescimento mais lento de contaminação. 

Gráfico 2: Crescimento da contaminação diária por COVID-19 na Dinamarca.
Fonte: Autoridade Dinamarquesa de Saúde.


No Gráfico 2 fica mais clara ainda a desaceleração do crescimento de casos após a contenção divulgada no dia 12 e estabelecida no dia 13 de Março.

Então é mais do que claro que a contenção é funcional. Ficando em casa a possibilidade de disseminação é facilmente retardada. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Estudar na Europa é um desafio muito grande para os Brasileiros?


Nesse vídeo eu vou falar um pouco sobre a internacionalização da Universidade de Copenhague. No caso é um vídeo que serve para a pessoa refletir e determinar se quer vir estudar na Europa. Em geral as universidades aqui seguem um padrão de excelência muito alto que são bastante semelhantes entre si.


A Universidade de Copenhague tem um grande número de alunos de intercâmbio, seja aqueles que vem para estudar por pouco tempo (como eu, 6 meses no caso), e até mesmo para aqueles que vem para a Dinamarca fazer o curso completo. Dessa forma o inglês é bastante difundido na universidade. Vale ressaltar que nós brasileiros não sabemos o que é ensino internacionalizado até sair da universidade brasileira, uma vez que 99% das aulas em nossas instituições são oferecidas em português. Isso acaba por afastar estudantes de fora, principalmente os Europeus. E sim, temos cursos de excelência no Brasil, como por exemplo, Odontologia, Engenharia de Materiais, Farmácia e Química de Produtos Naturais, Biologia, Medicina (área de plásticas) dentre outros.

Assim como outras capitais da Europa, Copenhague possibilita uma excelente locomoção, sendo a cidade não muito grande é bastante tranquilo o uso de bicicletas. Outro fato que ajuda muito o uso das bicicletas é o fato que a Dinamarca é um local plano, então é extremamente comum você ver engarrafamento de bicicletas no centro de Copenhague perto das 16:00 horas da tarde (horário de saída do serviço e das escolas, já que escurece próximo a esse horário).

O sistema de trem, metrô e ônibus são fantásticos, mas relativamente caros em comparação aos países da zona do Euro (geralmente 3x mais). Vale ressaltar que o custo do taxi é enorme e por aqui não existe UBER. Então quando descer no Aeroporto em Kastrup dê preferência ao metrô, trem ou ônibus. Existe um aplicativo de celular que todo visitante de Copenhague pode baixar para ter uma ideia de como se movimentar por aqui, o nome é Rejseplanen (Rejese = Viagem e Planen = Plano). Ele mostra as rotas do transporte público e também o preço que você irá pagar se tiver o cartão de transporte público. O valor na maioria das vezes é o dobro para quem não tem esse cartão. Esse tipo de facilidade pode variar de país para país na Europa (na Itália por exemplo você paga um valor fixo se for estudante e pode andar o ano todo de ônibus). Vale muito a pena pesquisar como funciona em cada local que você vai.

Essa é outra característica a ser mencionada, na Dinamarca se utiliza a Coroa Dinamarquesa (DKK ou Krone) e não o Euro, todavia 1 Euro equivale a mais ou menos 7,5 Coroas Dinamarquesas sempre (até 2020 era assim).

Ao fim do vídeo deixo uma filmagem (muito amadora) que fiz dando uma volta no Jardim Botânico de Copenhague.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Como se preparar para estudar fora do Brasil?

Como primeira postagem de 2020, quero falar um pouco sobre como é se preparar para um intercâmbio no exterior. 

Para isso, preparei um vídeo falando sobre quais são as coisas mais básicas que um estudante tem que se preocupar caso tenha pretensão de estudar fora. E também algumas dicas em relação a viagem para aqueles que nunca se deslocaram de avião para fora do Brasil.


As dicas para o intercâmbio no exterior que apresento nesse vídeo são direcionadas principalmente para os estudantes de pós-graduação que pretendem vir estudar na Europa (em destaque a Dinamarca), entretanto, também são válidas para estudantes em geral. Imagine que você está na fase de escolher qual curso irá prestar no vestibular, é interessante já ir pensando se tem vontade de fazer algum intercâmbio na graduação, ou se prefere pensar nisso mais como parte de uma pós-graduação. Note que essas escolhas são importantes, pois elas vão direcionar decisões na sua vida, como por exemplo a obtenção da proficiência em língua estrangeira. Se você acredita que é interessante um intercâmbio na graduação, então é bom correr o quanto antes com o aprendizado de línguas estrangeiras. 

Minha dia é para que não cometam o meu erro, ou seja, demorar muito para aprender inglês. A língua inglesa em muitos casos determina se você vai ou não vai estudar fora, as vezes chega a ser mais importante até mesmo que seu projeto, pois sem ela não há como aplica-lo e se comunicar com seu orientador (advisor). E também não acredite que o projeto que você escreveu e, enviou para o pesquisador do exterior ler, será  aplicado na íntegra, na maioria das vezes ele acaba sendo alterado, pois as circunstâncias exigem. 

Vale também ressaltar que o processo para obter o visto é diferente de país para país, sendo que ema alguns lugares, caso você pretenda ficar mais do que 3 meses (que corresponde ao visto de turista), você terá a necessidade de conseguir uma permissão de residência, sendo esse processo uma pouco mais complicado por causa da quantidade de documentos que você deve reunir (mas nada impossível de obter). A dica para essa burocracia é não deixar para fazer tudo encima da hora e guardar uma reserva financeira, pois em alguns casos existe a necessidade de já chegar com um contrato de locação, o que faz com que você tenha que pagar de 1 a 3 meses de aluguel adiantado e até mesmo um cheque caução.

A última dica que dou é que toda a sua organização tem que começar um ano antes da sua viagem, melhor ainda se você iniciar o processo de proficiência mesmo sem saber se irão abrir algum edital em breve, pois muita gente perde a oportunidade de conseguir estudar fora pois não consegue obter a nota mínima do edital. Em geral a CAPES exige 527 pontos no TOEFL - ITP, mas nesse caso, o ideal é visar 560 pontos, pois é a nota "padrão" que as universidades exigem. Por isso, se a ideia é sair no início do terceiro ano, o ideal é obter a proficiência no começo do segundo ano (já que a nota da maioria das provas de proficiência tem validade de 2 anos).

Abaixo deixo uma lista de quais são os passos a serem seguido, note que alguns deles ocorrem ao mesmo tempo:
1a - Buscar referências sobre seu projeto;
1b - Ficar atento às aberturas de editais para intercâmbio;

2 - Entrar em contato com uma referência do seu trabalho no exterior para saber se poderia te receber em um possível intercâmbio (nesse caso, você pode fazer o contato desde que seu orientador no Brasil esteja de acordo, caso contrário peça para seu orientador fazer esse contato);

3a - Escrita de um projeto;
3b - Obtenção de proficiência em inglês (mesmo se a pretensão for estudar em Portugal, ainda existe necessidade de proficiência em inglês);
3c - Inscrição no edital para intercâmbio;

4a - Sendo aprovado nas fases de avaliação da instituição de fomento você deve começar a obter os documentos necessários;
4b - Fique atento aos gastos que você pode ter durante o processo de obtenção de visto ou permanência, os mesmos podem variar de R$ 700,00 reais à mais de R$ 20000,00 reais. Por isso é importante se organizar (não se preocupe, a instituição de fomento paga desde o visto até sua viagem e estadia, mas em alguns casos existe a necessidade de pagar várias coisas antes da bolsa ser depositada na sua conta); 
4c - Dentro ainda da preocupação com gastos, fique atento com os limites de seu cartão de crédito, muitas vezes você terá que recorrer a uma casa de câmbio para fazer pagamentos no exterior (nem sempre os bancos fazem depósitos em moeda estrangeira com valores convertidos acima de R$ 20000,00 reais);

5a - Uma boa estratégia para brasileiros que vão para a Europa e não confiam muito no próprio inglês, é a de entrar por Portugal, uma vez que em caso de alguma dúvida no aeroporto o português resolve a parte de comunicação. 
5aa - Se escolher seguir a dica acima: Em alguns casos as autoridades portuguesas acabam por dar mais atenção e fiscalização aos brasileiros, pois Portugal é a principal rota de entrada da gente na Europa, por isso, não escolha voos com conexões muito curtas (vale ressaltar que isso não é exclusividade de Portugal, e também não acontece só com brasileiros);
5b - Quando for montar sua mala, não leve sua casa junto, pois o peso extra acaba gerando taxas extremamente altas das empresas aéreas (principalmente as que vão para a Europa), certifique-se dos tamanhos e pesos máximos das malas que a empresa aérea permite (um bom negócio é ver se a empresa permite duas malas de 23 kg ou ao menos uma 32 kg);
5bb - Em geral você tem direito a despachar uma mala de 23 kg no porão do avião, mas pode levar junto de si uma mala de bordo de 8 kg e mais uma mochila com coisas pessoais (são coisas pessoais os documentos, computadores e outros eletrônicos, remédios e receitas, jóias, dinheiro e qualquer coisa de valor);
5c - Certifique-se de que o mais importante não esteja na mala despachada (tudo o que é de valor tem que ir na cabine com você);
5cc - Certifique-se de que tenha as receitas médicas em inglês (caso os remédios sejam barrados ou ainda caso você perca a sua mala em que eles estavam dentro, você pode apresentar a um médico no exterior);
5d - Coloque identificadores externos em sua mala (tanto para reconhecer de longe, tanto com seus dados, caso a mesma seja extraviada).




terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Por que o oprimido oprime tanto?

Quando eu estava no ensino médio e havia uma visita marcada a um local, ninguém tinha a opção de pensar em faltar na viagem ou visita, pois já era garantido que alguma coisa seria aproveitada pelo professor. Haveria algo na prova ou algum trabalho deveria ser feito com a temática da visita, passeio ou viagem.
Hoje em dia, com essas pedagogias fajutas, o professor dá a opção ao aluno: Só traga a autorização quem for!
Aluno não tem que ter escolha, aluno tem que acatar as atividades escolares.
É por isso que a aproximação familiar no contexto das atividades escolares é algo de extrema importância, tanto para o crescimento do elo entre educação e família, assim como da compreensão do estudante frente a hierarquia e respeito do professor como se fosse um dos responsáveis.
Sim! O estudante tem que respeitar o professor da mesma forma que deve respeitar o pai e a mãe.
O professor não deve ser encarado como um opressor, mas sim como símbolo de respeito. Isso é bem diferente do que se apregoa atualmente, onde o vilão do processo educacional é o professor.
Um professor jamais deve ser responsável por buscar resgatar o estudantes, pois essa é função da família. Se a família não insistir e participar do processo educacional, o estudante não vai nunca compreender a importância do estudo. Mas muito pelo contrário, vai encarar a escola como um ambiente de carcere.
Nas faculdades esse pressuposto não é trabalhado, dessa forma os atuais professores não possuem o ímpeto para cobrar dos governantes medidas imediatas para o fortalecimento do núcleo familiar. A tragédia escolar do Brasil só ocorre pois a família é definida como um cluster de pessoas, que muitas vezes não se apoiam, mas sim vivem em um confronto.
1) Você é professor? Então é sua obrigação cobrar dos alunos que participem de todas as atividades escolares, seja uma feira de ciências, um passeio ou uma visitação a algum ambiente educacional. É sua função cobrar e dar nota aos alunos e punir quem não participa.
2) Você é pai ou mãe? Então é sua obrigação se aproximar e ser ativo na educação de seu filho(a). Você não deve esperar que o professor seja o agente de 100% da educação escolar do estudante, pois você é responsável por ao menos 51% desse processo.
3): Eu não tenho tempo para participar da educação de meu filho(a)! Seu filho(a) é o bem mais importante que você tem, ele é superior a novela e ao futebol. Evite gastar tempo com essas besteiras e faça parte da educação de seu filho(a). No mínimo você vai entender todas as possíveis frustrações que ele(a) pode ter.
4) Eu não tenho conhecimento para ajudar meu filho!
Então aproveite para estuda junto dele(a), é sua chance de aprimorar o seu conhecimento.

Notem que não existe empecilho para melhorar a educação e, que a maioria dos problemas, não são de ordem financeira, não se relacionam com investimento no material escolar, mas se inicia muito antes disso, começa em casa.
Podemos ter nas escolas tablets no lugar de livros, podemos ter doutores dando aulas com salários de R$ 10000,00 reais, podemos ter ar condicionado nas salas, mas tudo isso ainda não vai melhorar o ensino se a família não entrar na equação.
Ou a família entra para ensinar o respeito ou os oprimidos vão continuar oprimindo!

sábado, 30 de novembro de 2019

Universidade Pública x Universidade Particular no Brasil.

Não encarem isso como arrogância, mas sim uma visão técnica, uma reflexão... Algo que deve ser sim discutido.
No fim do ano é comum vermos reclames na TV sobre universidades particulares, onde essas instituições dizem que o mercado quer um universitário de verdade e por isso é uma ótima escolha ir estudar em x ou y instituição privada.
Entretanto, existe um grande problema quando se faz uma comparação entre uma instituição particular e uma pública. Infelizmente quem faz um curso em instituição particular não consegue ter a chance de adentrar 100% no mundo da pesquisa. Existe grande diferença entre fazer um curso superior e fazer um curso superior/iniciação científica.


A universidade pública não prepara somente o sujeito para o mercado de trabalho, mas também prepara o estudante para uma carreira acadêmica. Não que isso não pode ocorrer em uma universidade particular, mas dificilmente a instituição tem condições para fomentar uma pesquisa de alto nível.
Quantos artigos são publicados em universidades particulares? muito poucos. Os artigos são o termômetro da qualidade da universidade, se a mesma não publica artigos significa que não desenvolve pesquisa. Vale ressaltar que no Brasil o escopo da universidade é ensino, pesquisa e extensão. Logo uma boa universidade não somente ensina, mas tem OBRIGATORIEDADE de pesquisar e pesquisa gera artigos. A extensão é a falha que existe em toda universidade, seja pública ou particular, uma vez que é o momento onde o que foi pesquisado é exposto ao público de forma funcional.
Ou seja, vocês que vão entrar no mundo acadêmico, NÃO CONFIEM em reclame de TV dizendo que uma universidade particular gera universitário de verdade, essas universidades somente preparam pessoas para o mercado de trabalho, mas não consegue gerar um acadêmico, já que não ensina na maioria das vezes como o cientista ganha seu pão de cada dia, em outras palavras, não ensinam como se publica artigos.

Fatos a serem pensados entre os pares.
1) Quem sabe com uma discussão sadia as universidades particulares também não modifiquem o modo de pensar e busquem novas formas de fomento que possibilitem o investimento em laboratórios por exemplo.
2) É uma porcentagem muito grande da população se formando todo ano em faculdades particulares sem que realmente entendam ou sejam apresentados ao escopo da pesquisa.
3) Se o aluno da universidade particular também não entender/desenvolver uma pesquisa e óbvio que vai se somar ao grupo daqueles que não se sentem afetados com o sucateamento da pesquisa brasileira.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A Visão Além do Alcance

Já pensaram como é fácil gerar dados falsos para que uma pesquisa científica seja validada de forma estatística. É extremamente simples manipular dados e burlar o sistema para que as constantes e variáveis que você trabalha levem aos dados que você espera.

Em um artigo você não coloca as minúcias do que fez, portanto se uma variável teria que dar X mas deu Y, nada impede de forçar a mesma até que alcance o resultado correto. É bastante interessante isso, pois não sei dizer qual o nível de observação real que existem em resultados publicados. Muitas vezes os mesmos se caracterizam por ser projeções, mas que são considerados dentro de um escopo realista por mero indicio de dar certo, ou seja, é o famoso "Approach".

Acho que essa malemolência é o fiel da balança para as pessoas que sobem rapidamente no mundo das publicações acadêmicas e aquelas que travam na pesquisa, tentando objetivar uma "honestidade" estatística no nível de perfeição.

Na realidade essa honestidade de perfeição não cabe 100% em um universo embasado em burocracia, como ocorre no mundo acadêmico, entretanto o burlar o sistema não pode acontecer de forma desonesta. Nesse momento que é invocada a Espada Justiceira e o Olho de Thundera e a sua visão além do alcance. Em outras palavras, deve ser ativado o "Feeling" analítico.


Lion e a Espada Justiceira, o olho de Thundera na guarda da espada garante a visão além do alcance.

A estatística se mostra extremamente fria, são dados matemáticos sem subjetividade, sem as observações pessoais do pesquisador, sendo analisadas de forma técnica e levando a respostas mecânicas que carecem de subjetividade para serem melhor compreendidas.

Essa subjetividade do feeling analítico nasce de uma pesquisa com nuances qualitativas, para que ocorra a corroboração de dados durante uma triangulação na fase quantitativa. Todavia essa estratégia não deve virar uma muleta metodológica, com a simples finalidade de validação de dados de uma pesquisa que deu errado. Uma análise qualitativa por mais subjetiva que seja ela não pode ser carregada de pessoalidades, em outras palavras, não pode ser o que o pesquisador quer que os dados mostrem, mas sim, um resultado discutido em paralelo aos dados quantitativos. É uma forma de explicar o fato de uma dado não ser somente quantitativo.

Mas como corroborar os dados estatísticos com dados mais subjetivos em uma pesquisa técnica de laboratório? Isso é simples, inicia-se com o questionamento dialético, uma abordagem de busca por possíveis erros que podem ter ocorrido na coleta de dados, na construção da hipótese e principalmente na forma como os dados foram analisados. É comum que nesse momento da pesquisa os pares sejam consultados, exclusivamente os pares especialistas da área e que não se encontram vinculados à pesquisa, para que dessa forma consigam traçar um horizonte de confiabilidade.

A Visão Além do Alcance nada mais é do que compreender que a Ciência é construída no coletivo e que os dados não são quantitativos se não existe o qualitativo para corroborar. Todavia é assustador como pesquisas são desenvolvidas sem que haja uma apresentação analítica do que realmente ocorreu.

domingo, 29 de setembro de 2019

O Arauto da Notoriedade: De onde vem a pseudo-ciência moderna e as teorias da conspiração?

Um fato que a muito tempo vem gerando polêmica é o acesso público ao conteúdo científico, principalmente em tempos onde a população passa por um surto de descrença na Ciência. Observem que existe uma correlação existente entre o surgimento de movimentos sobre Terra Plana e Antivacinas, com a elitização do conhecimento científico.

Muitas poucas pessoas sabem, mas a ideia de Terra Plana surge no século XVIII com a ideia de escarnecer a Igreja Católica, a qual não acreditava na planicidade da Terra (basta ver as imagens de muitos santos da idade média segurando um globo por exemplo). O fenômeno Flatearth pode até parecer um movimento pseudo-científico de características fortemente empíricas, uma vez que seus aceitadores usam testes para tentar provar algo, mas na realidade, o movimento é algo mais filosófico e que somente vai acabar desinformando as pessoas. Logo, a Terra Plana trás mais uma destruição da erudição do que realmente de bases importantes da vida em sociedade.

Mas o grande problema é que a ideia de teoria da conspiração que surge no pensamento Flatearth, acaba fomentado novas teorias da conspiração, que por sua vez podem ser destrutivas, como por exemplo o movimento Antivacina. Mas de onde surge esse movimento?

No ano de 1998, um médico inglês chamado Andrew Wakefield publicou na famosa revista científica Lancet, um estudo com doze crianças autistas. No texto de sua pesquisa havia uma discussão dizendo  que em oito dessas crianças a síndrome somente se manifestou após duas semanas de vacinação com a tríplice viral (caxumba, sarampo e rubéola). Essa pesquisa caiu como uma bomba na comunidade científica e, também entre as pessoas leigas em Ciências. 

Obviamente houve a necessidade de uma contraprova e novas pesquisas foram feitas, pois o que o artigo denunciava era de gravidade imensa. Com o passar do tempo foi tornando-se claro que havia uma fraude na pesquisa de Wakefield e o intuito era financeiro. Descobriu-se que o médico tinha um contrato com um grupo de advogados que queriam criar um engodo para processarem a indústria farmacêutica. Wakefield teve seu registro médico cassado e sua publicação foi removida do site da revista Lancet no ano de 2010.


Figura 1: Com a popularização da internet e o uso da mesma pelos charlatões científicos houve um acréscimo da contaminação por Sarampo no mundo todo.


Figura 2: Andrew Wakefield

O artigo de Wakefield ficou no site da Lancet cerca de doze anos, o que foi suficiente para servir de argumento para os teóricos da conspiração. Hoje existem diversos engôdos ligados às vacinas, sendo que a proporção já se mistura com outros movimentos, como é o caso do Veganismo. Já existem pessoas dizendo que pelo fato das vacinas e soros serem produzidas e muitas vezes testadas em animais, isso corresponde a uma brutalidade e, dessa forma, preferem se manter sem a vacinação. Outro caso se relaciona com um medo de que componentes tecnológicos sejam injetados no corpo dos pacientes tendo como finalidade controlar suas ações e pensamentos pelos governos mais poderosos. Ou seja, a pseudo-ciência leva a um clima de histeria. 


Figura 3: A maioria dos surtos de doenças controláveis por meio de vacinas ocorre em meio às populações com pouco acesso a documentos científicos. Nesses locais a informação científica é misturada com explicações do sincretismo e senso comum.

Esse problema é muito grave e está correlacionado com a crença de que o conhecimento científico deve se manter somente dentro dos círculos científicos e de que a população deve receber apenas os resultados funcionais da consolidação de um processo científico. 

Parte da culpa desse sincretismo da população é da academia científica, que não acredita que as pessoas tenham capacidade de compreender o conhecimento científico. Logo, as revistas especializadas criaram para si uma notoriedade de oráculo e guardião do conhecimento, a tal ponto que o acesso, até mesmo para cientistas, se dá por intermédio de aporte financeiro, ou seja, para ler um artigo você tem que pagar. O que acaba por afastar a população do conhecimento científico.

Devido ao problema da academia elitizar o conhecimento, houve o surgimento de um efeito colateral, sendo que a figura do arauto da notoriedade científica ganhou mais notoriedade do que a revista em si, uma vez que o mesmo se utiliza de meios de comunicação em massa como a internet. Dessa forma muitos daqueles que se dizem pesquisadores e que conseguiram acesso a um documento científico, acabam por iniciar um processo de interpretação própria do conteúdo e, dessa forma, dissemina-lo de forma errada, seja com o intuito de querer levar alguma informação para a sociedade, seja com o fato de querer promoção do próprio nome. 

Um exemplo que faz com que a pessoa se torne o arauto da notoriedade para grande parte da comunidade leiga em Ciência é o uso do termo "Quântica" em qualquer coisa que não tenha uma explicação lógica. A Quântica ganhou com o passar do tempo um aspecto de irrealidade, ou seja, algo que não se encontra no universo natural, visível e compreensível, sendo que qualquer efeito que não se enquadre na física mecânica ou no senso comum, acaba se tornando um efeito quântico. Um tempo atrás um especialista em computação gráfica criou um vídeo onde eram despejadas dentro de uma caixa de acrílico bolinhas de gude de quatro cores diferentes, as mesmas caiam de forma caótica, mas em um dado momento elas se dividiam em caminhos específicos e se amontoavam baseado em suas cores específicas. Logicamente tudo não se passou de um efeito visual, uma vez que as bolinhas foram coloridas de forma digital. Entretanto, um grupo de teóricos da conspiração quântica surgiu com a discussão de que cada cor tem uma frequência de vibração específica e com isso conseguem se dividir em montes de mesma cor. Os mesmos foram desmascarados quando o making off do vídeo veio a tona e mostrou-se que todas as bolinhas eram brancas na realidade. 

Esses teóricos do universo quântico, que prometem curas e explicações milagrosas se baseiam na premissa de que ninguém compreende o que a Física e a Química Quântica dizem para dessa forma criarem uma casca de sabedoria em torno de suas reputações. Seria tudo mais simples se a população tivesse a informação de que a Quântica somente trata da quantidade de energia que uma partícula precisa para passar de um estado para outro, em vez de ser excluída da discussão, uma vez que a matemática envolvida é "refinada" demais.

Em resumo, enquanto o mundo acadêmico se manter fechado, sem que os pesquisadores de verdade venham a público explicar seus trabalhos, muitos oportunistas ganharam o título de arautos do saber e disseminarão pseudo-ciência e teoria da conspiração.