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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A Visão Além do Alcance

Já pensaram como é fácil gerar dados falsos para que uma pesquisa científica seja validada de forma estatística. É extremamente simples manipular dados e burlar o sistema para que as constantes e variáveis que você trabalha levem aos dados que você espera.

Em um artigo você não coloca as minúcias do que fez, portanto se uma variável teria que dar X mas deu Y, nada impede de forçar a mesma até que alcance o resultado correto. É bastante interessante isso, pois não sei dizer qual o nível de observação real que existem em resultados publicados. Muitas vezes os mesmos se caracterizam por ser projeções, mas que são considerados dentro de um escopo realista por mero indicio de dar certo, ou seja, é o famoso "Approach".

Acho que essa malemolência é o fiel da balança para as pessoas que sobem rapidamente no mundo das publicações acadêmicas e aquelas que travam na pesquisa, tentando objetivar uma "honestidade" estatística no nível de perfeição.

Na realidade essa honestidade de perfeição não cabe 100% em um universo embasado em burocracia, como ocorre no mundo acadêmico, entretanto o burlar o sistema não pode acontecer de forma desonesta. Nesse momento que é invocada a Espada Justiceira e o Olho de Thundera e a sua visão além do alcance. Em outras palavras, deve ser ativado o "Feeling" analítico.


Lion e a Espada Justiceira, o olho de Thundera na guarda da espada garante a visão além do alcance.

A estatística se mostra extremamente fria, são dados matemáticos sem subjetividade, sem as observações pessoais do pesquisador, sendo analisadas de forma técnica e levando a respostas mecânicas que carecem de subjetividade para serem melhor compreendidas.

Essa subjetividade do feeling analítico nasce de uma pesquisa com nuances qualitativas, para que ocorra a corroboração de dados durante uma triangulação na fase quantitativa. Todavia essa estratégia não deve virar uma muleta metodológica, com a simples finalidade de validação de dados de uma pesquisa que deu errado. Uma análise qualitativa por mais subjetiva que seja ela não pode ser carregada de pessoalidades, em outras palavras, não pode ser o que o pesquisador quer que os dados mostrem, mas sim, um resultado discutido em paralelo aos dados quantitativos. É uma forma de explicar o fato de uma dado não ser somente quantitativo.

Mas como corroborar os dados estatísticos com dados mais subjetivos em uma pesquisa técnica de laboratório? Isso é simples, inicia-se com o questionamento dialético, uma abordagem de busca por possíveis erros que podem ter ocorrido na coleta de dados, na construção da hipótese e principalmente na forma como os dados foram analisados. É comum que nesse momento da pesquisa os pares sejam consultados, exclusivamente os pares especialistas da área e que não se encontram vinculados à pesquisa, para que dessa forma consigam traçar um horizonte de confiabilidade.

A Visão Além do Alcance nada mais é do que compreender que a Ciência é construída no coletivo e que os dados não são quantitativos se não existe o qualitativo para corroborar. Todavia é assustador como pesquisas são desenvolvidas sem que haja uma apresentação analítica do que realmente ocorreu.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

XII ENPEC - Impressões que ficaram.

No mês passado participei do XII ENPEC (Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Ciências) e apresentei um trabalho onde discuti características dos livros de química do PNLD (Plano Nacional do Livro e Material Didático). O título do meu trabalho foi: Levantamento e Catalogação por Área dos Experimentos Práticos de Química Presentes nos Livros do PNLD. Quem se interessar e quiser ver o poster da apresentação oral pode encontra-lo no link acima (meu perfil do Research Gate).

O evento como um todo foi bastante interessante, pois é a primeira vez que o ENPEC ocorre na região Nordeste, no caso, sendo sediado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte na cidade de Natal. Que por sinal é um local de extrema beleza, com praias muito bonitas e que no meio do ano, por ser inverno, as mesmas permanecem mais vazias. 

Figura 1: Ondas quebrando nas rochas.

Figura 2: Maravilhosa faixa de terra que se estende na direção do mar.

Todavia, o evento não é de turismo, mas sim de discussão sobre a área de ensino de ciências. O grande problema que notei no evento foi o enviesamento político. Obviamente o XII ENPEC tentou homenagear Paulo Freire (por isso de tanta discussão política) e uma professora chamada Marta Pernambuco. 

Eu percebo que discutir política e características sociais é importante, entretanto, existe uma necessidade de dosar isso, uma vez que, o objetivo que deveria ser alcançado (nesse caso o ensino de ciências) é  deixado de lado. É a mesma história de considerar a interdisciplinaridade algo mais importante do que a disciplinaridade. Não tem como eu falar de interdisciplinaridade se as bases mínimas não forem supridas. O mesmo se aplica ao tema ensino de ciências, para poder desenvolve-lo existe a necessidade de compreender sua base. Nesse caso, a base não se encontra exclusivamente nas temáticas políticas. 

Por incrível que pareça, dia após dia está mais difícil discutir Química, Física e Biologia com os professores da área de ciências. E isso vem ocorrendo pois, na graduação, o aluno que visa seguir carreira de professor é retirado do ambiente científico, dos laboratórios e das pesquisas de iniciação científica, para estudar características sociais. Na realidade um licenciando é quem precisa mais pisar no laboratório e gastar seu tempo com pesquisa em bancada. Não existe forma alguma de se ensinar Química em alto nível sem quebras de paradigma. O aluno que quer ser professor TEM necessidade de saber preparar um experimento, usar equipamentos laboratoriais e discutir em nível científico de sua área. Antes de ser um educador o aluno tem que compreender que ele é um Químico, ou um Físico, ou um Biólogo. Entretanto, não é isso o que vem ocorrendo.

Quando se questiona muitos alunos do último ano de licenciatura em qualquer área da ciência sobre como eles definem o termo "Ciências", os mesmo cometem o erro de considera-la como a própria natureza. E esse é um problema GRAVÍSSIMO! 

Muitas poucas pessoas conseguem compreender que a ciência só existe pelo simples fato do ser humano um dia começar a investigar a natureza e promover os famosos relatórios de dados (Agora você entende a necessidade de fazer relatórios!). A ciência como um todo deveria ser definida pelos formandos como sendo um modelo de interpretação da natureza, ou uma ferramenta que serve para promover a transposição do abstrato que se encontra na natureza para uma linguagem inelegível.

Logo os aspectos mais fundamentais da ciência não vem sendo discutido nesses eventos, o que  acaba por direcionar a forma com que os currículos serão elaborados para as próximas gerações de estudantes. É OBVIO que essa atitude terá graves consequências no futuro. Um evento de ensino de ciências (estou generalizando para todos os que vem ocorrendo nos últimos anos) tem que discutir mais ciência, para que a mesma norteie como os currículos devem ser elaborados.

Não adianta um aluno fazer um curso de Química e sair sem saber Química, pois o conteúdo do professor é completamente limitado.

Não adianta um professor de Química ter o diploma e não saber produzir uma solução de 0,5 mol de Sulfato de Cobre, partindo de 0,1 mol de Ácido Sulfúrico e 1,0 mol de Cloreto de Cobre. É laro que esse é um exemplo grosseiro, mas que se mostra uma grande barreira para uma infinidade de professores (em alguns casos o professor tem até medo de chegar perto do material laboratorial). 

Isso é extremamente preocupante.

Características das apresentações:
As apresentações no ENPEC se deram na forma de sessões dirigidas tematizadas (a minha foi sobre currículo), onde o poster de cada participante era projetado em um telão. Cada um tinha 10 minutos para apresentar, sendo que cada sessão continha em torno de uns 8 participantes. Após isso houve um momento de discussão (cerca de 40 minutos), onde a plateia e os próprios participantes podiam fazer perguntas entre si. Cada sessão dirigida levava em torno de umas 2 horas, sendo que diversas apresentações eram desenvolvidas simultaneamente por todo o campus da UFRN.

Também houve uma feira de livros, onde pude adquirir um exemplar da autobiografia do Planck e também o famoso livro Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan.  
Figura 3: Livros que comprei na feira do livro da física.


domingo, 16 de junho de 2019

XII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (ENPEC).

Agora no fim do mês de junho irei participar do XII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (ENPEC), que ocorrerá em Natal - RN, nos dias 25, 26, 27 e 28 do recorrente mês. O ENPEC será sediado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Um fato interessante desse evento é que não haverá posteres sendo impressos, mas sim apresentados em um telão, como se fosse o slide de um seminário. Isso é bem legal, pois quem participa de congressos costuma ter que imprimir os banners e depois de apresentar costuma ir para o lixo, criando mais material que nem sempre é reciclado. Além disso, a impressão costuma ser cara e quando não é descartada ainda ocupa espaço em sua casa.

Após o evento vou trazer aqui um feedback do evento, assim como fiz com o SINECT. Em seguida vou deixar o link do evento para quem quiser visitar o site: ENPEC.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Quais as Vantagens e Objetivos da Participação de Eventos Acadêmicos?

Essa será a primeira postagem de 2019, vou tentar manter um fluxo de ao menos uma postagem por mês. No fim dessa postagem deixo duas perguntas e suas respectivas respostas sobre as vantagens e objetivos de participação de ventos acadêmicos.

Nessa postagem vou dar acesso a um trabalho que fiz e apresentei em um simpósio na cidade de Ponta Grossa, no Paraná. Esse evento foi o SINECT (Simpósio Nacional de Ensino de Ciências e Tecnologia) e ocorreu dentro do campus da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná).

Foto 1 - Capela dentro da UTFPR

Foto 2 - Biblioteca Tecnológica Affonso Alves de Camargo.

Foto 3 - Típica árvore (conífera) dessa região do Paraná.

O meu trabalho teve o título: Estudo do Desenvolvimento do Espírito Científico em Aulas de Química Geral com a Aplicação do Método Científico. Quem quiser pode ter acesso ao PDF nos Anais do evento (basta dar um Control + F e colocar na caixinha de texto o título do trabalho).

Esse simpósio foi bastante interessante pois os trabalhos precisaram ser escritos na forma de artigos de no máximo 8 páginas. A apresentação dos mesmo se baseou em duas formas, no caso pôsteres para alguns trabalhos e para a grande maioria as chamadas sessões dirigidas.

Uma sessão dirigida se baseia em apresentações orais de no máximo uns 5-7 minutos, onde um coordenador organiza as apresentações e cria uma problemática para poder desenvolver uma discussão entre os apresentadores e também com contribuição da plateia. As sessões eram divididas em áreas temáticas, sendo que a várias ocorreram ao mesmo tempo em salas diferentes do campus da universidade. 

Além das sessões dirigidas e dos pôsteres, também ocorreram minicursos, mesas redondas, lançamento de livros e palestras com convidados nacionais e internacionais.

Foto 4 - Sensor de temperatura de baixo custo utilizado em microcontroladores (temática do minicurso que fiz durante o evento).


Qual a vantagem de participar de um evento?
A grande vantagem de participar de eventos como simpósios e congressos, não é somente a de apresentar o que você pesquisa, ou de ver novos trabalhos na sua área temática, mas sim a de criar uma rede de conexão com outros pesquisadores e instituições. Por isso, participar de eventos de abrangência nacional e, principalmente, internacional são ações imprescindíveis para um estudante. A baixo vou deixar 3 exemplos de situações que foram muito proveitosas nesse simpósio.

1) Um amigo que fiz no simpósio, recebeu um convite para tentar um mestrado acadêmico na UTFPR, detalhe, ele é de Manaus (4 mil quilômetros de distância de Ponta Grossa) e somente iria saber que sua área tem um campo forte no Paraná através do evento. Ele então tirou a sorte grande? ... NÃO! ... Isso não tem nada a ver com sorte, mas sim com espírito de querer crescer academicamente.

2) Na casa que fiquei (via Airbnb, o que deu MUITO CERTO!!!), conheci esse meu amigo que citei acima e mais um rapaz que veio da cidade de Araraquara (vizinha de São Carlos, que é onde moro). Durante a janta, nós três desenvolvemos uma discussão muito longa sobre ensino de ciências, ensino especial, epistemologia, abordagens metodológicas, política e até de música. Ou seja, discussões proveitosas como essas só acontecem quando pessoas com diferentes pontos de vista se reúnem, fato esse que dificilmente vai ocorrer dentro de um grupo onde todos pensam da mesma forma.

3) Na minha sessão dirigida conheci uma moça que apresentou um trabalho com temática de ensino de química quântica, o que foi muito interessante, pois eu tenho mestrado em uma abordagem de mecânica quântica chamada DFT - Density Functional Theory (quem se interessar sobre o que pesquisei é só clicar aqui: Dissertação). Após a sessão dirigida ficamos um bom tempo conversando sobre como essa área da química é trabalhada tanto no ensino médio quanto no ensino superior. Como o doutorado dela ruma nessa área, a nossa discussão se mostrou extremamente proveitosa para ela, uma vez que, dificilmente, alguém com o tipo da minha formação se encontra na área de educação. Ou seja, somente em eventos grandes você consegue encontrar gente com formações mais distintas possível. 

O que buscar ver num congresso ou simpósio?
Pelo contrário do que se imagina, não é o ideal participar somente de apresentações ligadas a sua área, mas sim buscar trabalhos que visam outras abordagens. Essa estratégia serve para que seu repertório frente a discussão científica cresça e, assim, seus interesses não sejam somente pontuais. Eu por exemplo, além de participar da minha sessão dirigida, a qual tinha o tema de ensino de química, também participei de sessões que envolviam políticas públicas e ensino para surdos, o que me ajudou a tomar melhores rumos quando discuto esses temas atualmente.